UM JEITO DIFERENTE DE CONTAR Histórias.....
Um jeito diferente de contar histórias é através do bordado, mulheres fazem o resgate de suas vidas.
Mas para quem pensa que bordado é coisa de mulher temos alguns artistas que usam essa técnica para se expressar, entre eles Leonilson e Bispo do Rosário com seu manto todo bordado com restos de linhas de uniformes da Colônia desfiados. Bispo era esquizofrênico e vivia na Colônia Juliano Moreira,durante esse tempo ele confeccionou várias peças bordadas entre elas o Manto da Apresentação, espécie de mortalha sagrada que bordaria durante toda a vida para vestir no dia da apresentação, no Juízo Final, na data de sua passagem . Bordados neste manto, estariam todos os nomes de pessoas que ele julgava merecedoras de subir, de carona, rumo ao além. Bispo utilizou a mesma técnica de bordado nas obras depois chamadas de estandartes:lençóis e cobertores da Colônia bordados a mão com as linhas dos uniformes .
ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO: O ILUSTRE DESCONHECIDO
No ano em que se comemora o centenário de nascimento e vinte anos de sua morte, espera-se que o Brasil promova uma programação digna da obra artística de Arthur Bispo do Rosário. Espera-se, principalmente, que Sergipe, seu estado natal, faça a sua parte.
Este artigo, estruturado em duas partes, cuja primeira você lê agora, é uma pequena contribuição nas iniciativas alusivas à data.
Arthur Bispo do Rosário é considerado pela crítica um dos principais artistas brasileiros do século XX, saudado nacional e internacionalmente, mas apreciado por um público ainda restrito a intelectuais.
Um dos motivos mais significativos para o reconhecimento de sua importância é que Bispo do Rosário foi um artista de vanguarda, de forma absolutamente intuitiva, sem receber qualquer treinamento técnico, conviver com outros artistas, ler livros especializados ou frequentar espaços de arte.
Começou a produzir, de forma praticamente ininterrupta, a partir dos anos 40, e nesse trabalho incluiu elementos pop, movimento estético que só surgiria na Inglaterra por volta da década de 1960.
Sua genialidade expressa-se na forma como trabalha os elementos, os novos suportes utilizados, a configuração contemporânea de sua arte, a harmonia do conjunto das peças.
Arthur Bispo foi redescoberto a partir do trabalho do crítico Frederico Morais na década de 80, que organizou uma exposição e lançou uma possibilidade de compreensão e sistematização do conjunto da obra. Todavia, Rosário é desconhecido pela maioria do público brasileiro e, curiosamente, também em sua terra natal, Sergipe.
Pode-se pensar, afinal, que muitos grandes artistas plásticos são desconhecidos do grande público no Brasil, pelas características da formação e desenvolvimento educacional da população do país. No caso de Rosário, o que surpreende é que sua obra seja fácil de agradar qualquer observador.
Isso se deve a presença de um forte resultado lúdico nas peças, pelo colorido, formas, referências e pelos brinquedos que elaborou. Ademais a utilização de materiais e objetos do cotidiano possibilita que o apreciador se identifique.
Após o impacto inicial das primeiras exposições, foram escritos artigos, ensaios e trabalhos científicos diversos. Bispo do Rosário virou livro, peça de teatro e vai virar filme este ano, pelas mãos do cineasta Geraldo Motta. Muito ainda terá que ser feito para revelar a grandiosidade de sua produção artística.
NEGRO, POBRE, LOUCO
Arthur Bispo do Rosário, nasceu em Japaratuba – SE, no ano de 1909 (ou 1911, não se sabe ao certo), descendente de escravos africanos.
Em 1925, muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se marinheiro. Foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe na categoria peso leve pela Marinha.
Em seguida, passa a trabalhar na Light, empresa carioca de fornecimento de energia, e como lavador de bonde e borracheiro. Sofre um acidente de trabalho e resolve ajuizar uma ação contra a empresa, ocasião em que conhece o advogado Humberto Leoni, que passa a representá-lo na demanda judicial.
Começa a trabalhar na casa do advogado, como empregado doméstico, fazendo serviços diversos e residindo no local.
Na noite de 22 de dezembro de 1938, procura o patrão motivado por alucinações que lhe diziam que deveria apresentar-se à Igreja da Candelária. Peregrina pelas ruas, dirigindo-se a várias igrejas. Por fim, chega ao Mosteiro de São Bento, onde declara aos monges ser um enviado de Deus, incumbido da tarefa de julgar os vivos e os mortos.
É preso como indigente e demente, sendo conduzido ao Hospital dos Alienados, um hospício situado na Praia Vermelha. Um mês depois, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, onde permaneceria por cerca de cinqüenta anos.
Foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide - que é um dos quatro tipos principais dessa patologia -, caracterizada pela ocorrência de visões, alucinações, sentimentos de perseguição e em que é comum o doente escutar vozes (FRANÇA, 2007).
A partir desse período, começa a produzir seu trabalho artístico, motivado por um pedido de Deus para que reconstruísse o universo e registrasse a passagem divina pela terra.
Aí, começa a história de Bispo do Rosário como artista plástico.
Estima-se que elaborou cerca de 1.000 peças, que permaneceram como propriedade da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, hoje desativada comoo instituição manicomial e transformada no Museu Arthur Bispo do Rosário.
Bispo faleceu em 1989.
Este artigo, estruturado em duas partes, cuja primeira você lê agora, é uma pequena contribuição nas iniciativas alusivas à data.
Arthur Bispo do Rosário é considerado pela crítica um dos principais artistas brasileiros do século XX, saudado nacional e internacionalmente, mas apreciado por um público ainda restrito a intelectuais.
Um dos motivos mais significativos para o reconhecimento de sua importância é que Bispo do Rosário foi um artista de vanguarda, de forma absolutamente intuitiva, sem receber qualquer treinamento técnico, conviver com outros artistas, ler livros especializados ou frequentar espaços de arte.
Começou a produzir, de forma praticamente ininterrupta, a partir dos anos 40, e nesse trabalho incluiu elementos pop, movimento estético que só surgiria na Inglaterra por volta da década de 1960.
Sua genialidade expressa-se na forma como trabalha os elementos, os novos suportes utilizados, a configuração contemporânea de sua arte, a harmonia do conjunto das peças.
Arthur Bispo foi redescoberto a partir do trabalho do crítico Frederico Morais na década de 80, que organizou uma exposição e lançou uma possibilidade de compreensão e sistematização do conjunto da obra. Todavia, Rosário é desconhecido pela maioria do público brasileiro e, curiosamente, também em sua terra natal, Sergipe.
Pode-se pensar, afinal, que muitos grandes artistas plásticos são desconhecidos do grande público no Brasil, pelas características da formação e desenvolvimento educacional da população do país. No caso de Rosário, o que surpreende é que sua obra seja fácil de agradar qualquer observador.
Isso se deve a presença de um forte resultado lúdico nas peças, pelo colorido, formas, referências e pelos brinquedos que elaborou. Ademais a utilização de materiais e objetos do cotidiano possibilita que o apreciador se identifique.
Após o impacto inicial das primeiras exposições, foram escritos artigos, ensaios e trabalhos científicos diversos. Bispo do Rosário virou livro, peça de teatro e vai virar filme este ano, pelas mãos do cineasta Geraldo Motta. Muito ainda terá que ser feito para revelar a grandiosidade de sua produção artística.
NEGRO, POBRE, LOUCO
Arthur Bispo do Rosário, nasceu em Japaratuba – SE, no ano de 1909 (ou 1911, não se sabe ao certo), descendente de escravos africanos.
Em 1925, muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se marinheiro. Foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe na categoria peso leve pela Marinha.
Em seguida, passa a trabalhar na Light, empresa carioca de fornecimento de energia, e como lavador de bonde e borracheiro. Sofre um acidente de trabalho e resolve ajuizar uma ação contra a empresa, ocasião em que conhece o advogado Humberto Leoni, que passa a representá-lo na demanda judicial.
Começa a trabalhar na casa do advogado, como empregado doméstico, fazendo serviços diversos e residindo no local.
Na noite de 22 de dezembro de 1938, procura o patrão motivado por alucinações que lhe diziam que deveria apresentar-se à Igreja da Candelária. Peregrina pelas ruas, dirigindo-se a várias igrejas. Por fim, chega ao Mosteiro de São Bento, onde declara aos monges ser um enviado de Deus, incumbido da tarefa de julgar os vivos e os mortos.
É preso como indigente e demente, sendo conduzido ao Hospital dos Alienados, um hospício situado na Praia Vermelha. Um mês depois, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, onde permaneceria por cerca de cinqüenta anos.
Foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide - que é um dos quatro tipos principais dessa patologia -, caracterizada pela ocorrência de visões, alucinações, sentimentos de perseguição e em que é comum o doente escutar vozes (FRANÇA, 2007).
A partir desse período, começa a produzir seu trabalho artístico, motivado por um pedido de Deus para que reconstruísse o universo e registrasse a passagem divina pela terra.
Aí, começa a história de Bispo do Rosário como artista plástico.
Estima-se que elaborou cerca de 1.000 peças, que permaneceram como propriedade da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, hoje desativada comoo instituição manicomial e transformada no Museu Arthur Bispo do Rosário.
Bispo faleceu em 1989.
BORDANDO PASSADO E PRESENTE
O Ceará é famoso pela tradição do bordado e várias comunidades quilombolas no Estado são responsáveis por preservar a arte de tecer. A trama das peças, produzidas quase que exclusivamente por mulheres, foram ensinamentos passados pelos antepassados, formando várias gerações de rendeiras.
Rafaélla Xavier Soares, 18 anos, mora em Aquiraz, município da região metropolitana, distante 27 quilômetros de Fortaleza, mais precisamente na comunidade de Lagoa de Ramos. Lá, descobriu-se quilombola há menos de dois anos. “Nunca tinha ouvido falar em quilombos antes. Ouvi muito os mais velhos contando histórias sobre os primeiros moradores daqui, mas não sabia que eles eram escravos que lutavam pela liberdade”, conta ela.
Antes dessa revelação, porém, a jovem já cultivava a tradição do bordado, passado para ela pelas mais velhas da família. “Minha avó já fazia renda, ensinou para minha mãe e eu aprendi com elas. Sempre achei muito bonito”, diz Rafaélla, confirmando a resistência de várias gerações. “Assim como eu, tem muita gente jovem que vive do bordado.”
O produto é, junto da agricultura e da pesca, uma das fontes de sustento de diversas localidades cearenses e virou uma alternativa para as mulheres das comunidades litorâneas, enquanto esperavam seus maridos voltarem da pesca, que durava vários dias.
O artesanato da região se caracteriza por formas geométricas criadas em peças de linho. O tecido recebe uma espécie de goma para ficar mais rígido e depois é trabalhado à mão, seja cortando, desfiando ou cozendo, dependendo do efeito que se queira dar à renda.
Essa técnica, que também é conhecida por labirinto, faz muito sucesso entre os que visitam o Estado. “Tem gente que acha que a gente trabalha com máquina (de costura) de tão bom que fica o bordado”, lembra Rafaélla.
Segundo ela, o preço das peças pode variar de R$ 5 a R$ 300, dependendo do tamanho e do desenho. “A gente trabalha também com crochê e chega a ficar mais de um mês fazendo uma colcha de casal”, completa.
Ao contar como é a vida no local onde vive, Rafaélla acabou revelando muita influência dos antepassados negros no artesanato feito na região. “Nas comunidades de Lagoa de Ramos e Goiabeiras (outro remanescente de quilombo em Aquiraz), que fica próximo de lá, o bordado é muito bem feito e tem muita gente que vive disso”, comenta ela.
08/03/2011 - 07h03Exposição reúne várias vertentes do artista cearense Leonilson
SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO
DE SÃO PAULO
Numa pintura de 1989, Leonilson construiu uma cartografia de rios que deságuam num círculo vermelho, entre eles o Tietê, o Paranapiacaba e outros braços que se chamam "Confusão", "Olhar Fundo", além de um lago azul de nome "Desejo".
Veja galeria de fotos com obras de Leonilson
Se fosse um autorretrato, algumas veias no mapa seriam Bispo do Rosário e Lygia Clark. Ele, pela loucura que guia a agulha nos traços e palavras dos bordados. Ela, pela dimensão cromática e do corpo que soube arquitetar com potência em sua obra.
Na exposição que o Itaú Cultural abre no próximo dia 16, em São Paulo, essas múltiplas vertentes da obra do artista aparecem costuradas pela leitura de seus trabalhos como repetidas e duras manifestações autobiográficas.
Leonilson, agora na maior mostra já dedicada à sua obra, é visto como o produto sofrido da solidão em mais de 300 trabalhos que construiu em sua curta carreira, abreviada pela morte aos 36 anos, por causa da Aids.
| Divulgação | ||
![]() | ||
| O artista plástico cearense Leonilson, morto em 1993, que é tema de retrospectiva no Itaú Cultural, em São Paulo |
DESPEDIDA
Embora descrito como sujeito "sempre apaixonado" pelo curador da mostra Ricardo Resende, essa leitura do artista abalado pelo peso do mundo também ressurge na retrospectiva como ser fragmentário, um neorromântico que foi ao mesmo tempo espelho de sua época.
No momento em que abandona, por uma alergia aos pigmentos, as pinturas em grande escala, que o fizeram despontar na chamada geração 80 ao lado de figuras como Leda Catunda e Sergio Romagnolo, Leonilson fez como espécie de despedida o trabalho dos rios, em que se colocou no centro de um forte turbilhão de influências.
Depois disso, sua obra se volta para pequenos desenhos e bordados delicados, que desafiam a escala dos espaços expositivos.
Não por acaso, esse momento é 1989, ano da queda do Muro de Berlim, do fim das utopias e perto da descoberta da doença que tiraria sua vida --ele chegou a se referir à Aids como "peste".
CRONISTA DA ÉPOCA
Tem uma coisa solene na obra dele", diz à Folha a curadora Lisette Lagnado, autora de "São Tantas as Verdades", livro que virou referência sobre o artista. "Mas, de fato, a atmosfera dessa época transparece no que ele vai escrever, no que estava acontecendo, ele foi um cronista."
Lagnado chama esse período de "grande ressaca" que veio depois do desbunde das conquistas sociais e políticas dos anos 80, de uma democracia em construção e seus valores mais flexíveis.
Na obra de Leonilson, são trabalhos como o bordado em que escreve numa fronha a palavra "ninguém". Ou a peça em que costura quatro quadrados de cor que chama de cheios e vazios, como um pulmão que respira movido por intervalos cromáticos.
"Não deixa de ser um retrato do corpo do artista, a respiração, algo que fala sobre estar vivo", diz o curador Ricardo Resende. "Ele foi muito solitário, tímido, mas essa solidão é também um espelhamento do homem contemporâneo, são sentimentos que tocam todos."
De fato, Leonilson se via um pouco com o rosto de sua época mais do que o homem específico que sofria em carne viva.
No trabalho mais antigo da mostra, um autorretrato, constrói uma caixa de madeira com tampo de vidro. Deixa ver dentro um pedaço de feltro com a inscrição "Mirro", referência à palavra francesa para "espelho".
É como se ele fosse ao mesmo tempo esse "homem contemporâneo", com o rosto anônimo de quem vê a obra.
"Por isso eu defendi com muito ardor o trabalho dele", lembra Sheila Leirner, que escalou Leonilson para a Bienal de São Paulo em 1985. "Senti que tinha uma grande verdade no trabalho dele."
Obra montada pela primeira vez naquela Bienal, "A Grande Pensadora" será reconstruída agora para a mostra do Itaú Cultural. É um símbolo do infinito estampado no chão, um globo terrestre sobre uma base encimado ainda por uma biruta que mostra a direção dos ventos.
Deixa ver que nas pinturas, nos desenhos e nos bordados, Leonilson se deixou levar por vários entroncamentos e rotas desde o início.
LEONILSON
QUANDO abertura dia 16, às 20h; de ter. a sex., das 9h às 20h; sáb. e dom., das 11h às 20h; até 29/5
ONDE Itaú Cultural (av. Paulista, 149, tel. 0/xx/11/2168-1776)
QUANTO grátis

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